Já é a 2ª vez que os promotores de exercício físico se vêm obrigados a suspender os serviços que oferecem e colocar em stand-by, tanto a condição física dos que procuram no Crossfit uma forma de bem-estar e qualidade de vida, como nos que praticam a modalidade ao nível do rendimento. Infelizmente, e cada vez que paramos, deparamo-nos com um cenário que enfraquece as nossas estruturas desportivas, perdemos o ritmo e arriscamos mesmo a fechar os espaços desportivos, dada a insustentabilidade em que alguns mergulham. E por quê? Porque a maioria não tem um plano estratégico, não previu este tipo de situações, não estava preparada.

Ainda que os apoios financeiros existam e possam ajudar as entidades e clubes que promovem o desporto, no caso das box’s em geral (e do Crossfit em particular) e porque a maioria é constituída como empresa, nem sempre as nossas Box’s são elegíveis ao abrigo da maioria dos apoios financeiros que existem. O apoio das Autarquias incide, na sua maioria, em desportos federados (que ainda não é o caso do Crossfit), sendo possível o apoio da modalidade como atividade física e desportiva regular, mas que sabemos que é uma modalidade com custos fixos altos, investimento material, financeiro e de capacitação técnica de quem exerce as funções nos espaços e que a coloca ao nível de qualquer outra modalidade federada e, em alguns casos, acima de algumas nestas referências anteriores. Muitas vezes, o apoio que se consegue, enquanto atividade regular desportiva, está muito aquém da realidade das box’s em Portugal.

Cada vez mais é preciso olhar para o fenómeno do Crossfit como um negócio desportivo, que perspective o lucro e que tenha como objetivo o negócio em desporto. Sabemos que a verdadeira missão do Crossfit é a superação de limites, é elevar as pessoas, é oferecer uma resposta atípica e à medida de cada um, mas a verdade é que, para conseguirmos levar a sua missão adiante, as organizações têm que apostar cada vez mais nas suas estruturas e ter um modelo de gestão subjacente. A missão tem, e deve, ser suportada por um modelo sustentável do ponto de vista financeiro. Pensarmos na realidade da modalidade de outra forma, que não esta, é ignorar todos os contextos que nos têm sido apresentados e ficar à espera da próxima “cachimbada” que as organizações vão levar.

Depois do que a pandemia nos veio mostrar, pôr a descoberto, a aposta forte no desenvolvimento da modalidade do Crossfit, na minha opinião, passa por revestir as Box’s e as empresas que lhe estão associadas, de uma componente desportiva, competitiva e comercial. É preciso estruturar este negócio com qualidade e, acima de tudo, capacitar Owners e Diretores Técnicos para um modelo de gestão e de direção que lhes permita retomar, de forma profissionalizada e sustentável, as suas estruturas e equipamentos desportivos.

Subjacente a esta estrutura e a este modelo de gestão, surgem outras questões que provavelmente já integram a realidade de alguns espaços (sobretudo os que estão integrados em espaços fitness), mas que passarão despercebidos para outros tantos, que é a importância da capacitação do quadro técnico das empresas, no âmbito dos sistemas de gestão da Qualidade. Esta área, num médio prazo, e a certificação das Box’s como Escolas de Crossfit, à semelhança do que já se faz nas modalidades de referência (natação e futebol, por exemplo) é uma das que vai distinguir a modalidade e pode colocar o Crossfit no panorama das Escolas de Formação Desportiva e, quem sabe, elevar a modalidade ao nível do desporto federado. Não ignorem este fenómeno.

O futuro de uma estrutura empresarial de sucesso prende-se à importância que a mesma dá a áreas como a qualidade, a comunicação, o marketing, o planeamento estratégico, a gestão financeira e a análise de dados, que lhe permite agir no mercado e não reagir, como aconteceu com a maioria das estruturas de Crossfit em Portugal, e com muitos clubes e entidades desportivas de outras modalidades.

Como Coordenadora pedagógica de formação na área do Desporto, enquanto praticante da modalidade e ex-Dirigente Desportiva, reconheço a importância da crescente capacitação de entidades e recursos humanos e, todos os dias, no desenvolvimento do meu trabalho, procuro constantemente criar e desenvolver conteúdos formativos que sigam de encontro às necessidades do público com quem trabalho e lacunas diárias no terreno, de todos os agentes desportivos de todas as modalidades. Também eu senti os “gap’s da vida” enquanto Gestora e Dirigente Desportiva. Reagi, na maioria das vezes, e nesses momentos tomam-se más decisões.

Perdoem-me a honestidade, mas esqueçam isso do “eu consigo gerir uma rede social, fazer um plano de treino e captar clientes e isso chega”. Tão importante como a capacidade técnica da modalidade que todos têm nesta realidade, é a capacidade que terão para todas as outras áreas de negócio em desporto. E se um Técnico é excelente no planeamento desportivo, mas não percebe nada de gestão ou qualidade ou planeamento estratégico, para quê inventar?

Apostem na vossa capacitação e nas novas realidades de procura. Apostem em skills para trabalhar com desporto adaptado, um mercado cada vez mais significativo, precisamente porque a missão do Desporto em geral, e do Crossfit em particular, é a integração. Apostem em vocês, reestruturem-se, continuem a perseguir o Crossfit como promotor de saúde e qualidade de vida, pois é aqui que reside a sustentabilidade da modalidade. Façam parcerias com as Escolas, promovam o Crossfit junto da comunidade escolar, através do desporto escolar. Avancem com uma Escola de Formação Desportiva. Procurem apoios financeiros para vos ajudar a revitalizar, candidatem-se a projectos de desenvolvimento desportivo, organizem eventos desportivos, dediquem-se às novas exigências do desporto e às tendências da aposta na igualdade de género, inclusão social e desporto feminino, apostem num CCP para poderem dar formação profissional certificada aos vossos recursos humanos ou em entidades formadoras, na área do desporto. Acima de tudo, procurem formas de vos capacitar para a competitividade no mercado, em todas as áreas possíveis. Elevem (ainda mais) o nome da modalidade.

Por: Daniela Veiga

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