O Planeta Crossfit esteve à conversa com o Telmo Santos, o Telmo é um dos melhores e mais conhecidos atletas nacionais de Crossfit e penso que dispensa apresentações. Nesta pequena conversa falamos um pouco sobre como se iniciou no Crossfit, porque gosta da modalidade, entre outras coisas mais. Não perca a entrevista que se segue.

P.C –  Comecemos pelo início, quando e como é que o CrossFit entrou na tua vida?

T.S – O Crossfit (não com esta designação) surgiu da maneira mais natural possível, daí dizer que pratico Crossfit desde sempre.

O meu treino e de muitos parceiros, involuntariamente, tinha algumas linhas do que viria a ser esta modalidade. A intensidade, o endurance, a potência, a diversidade e a quebra de rotina em todos os treinos. Contudo faltavam algumas vertentes como a ginástica, a halterofilia e a metodologia para ser realmente Crossfit, isso surgiu em finais de 2011, através de amigos e posterior curiosidade através de vídeos na internet.

P.C – O que é que te apaixonou na modalidade para te renderes?

T.S – Nunca gostei de me fechar num ginásio para ser o mais forte, nunca gostei de passar horas a correr para ser o mais rápido, nem de estar na piscina e ser o melhor nadador do mundo. Tinha e tenho obrigatoriamente de ser equilibrado em tudo. Quero levantar 120kg de supino bem como correr os 10km abaixo dos 40 minutos, poder executar movimentos gímnicos complexos e mesmo assim ser um nadador razoável, por exemplo.

O Crossfit proporciona tudo isso e foi muito fácil ficar rendido à modalidade.

P.C – Obviamente que o CrossFit é a modalidade do momento e veio revolucionar um pouco o mundo do Fitness. Para ti o que é que a diferencia dos outros programas de Fitness.

T.S – Em primeiro, a diversidade/adaptabilidade que pode ir sendo aplicada em diferentes modalidades, a diferentes grupos etários e sob todo e qualquer tipo de limitações.

Segundo, a estrutura administrativa que envolve a modalidade, bem ou mal, é algo de impressionante ver como construíram “um império” sustentado tornando a sua evolução num fenómeno.

Terceiro, a colocação de desafios constantes e variados que permitem um senso de evolução e superação mais frequente do que em qualquer outra modalidade.

P.C – Tenho feito esta pergunta a alguns dos meus entrevistados e vou fazê-la a ti, o CrossFit é mesmo para todos como a metodologia diz?

T.S – Sim….Sem sombra de dúvida!

A grande razão para muitos não acreditarem nisso é por ser um desporto relativamente recente, que obriga a uma mudança de mentalidades e isso traz muita descrença e ódio também.

A descrença surge porque o sucesso é visível e palpável tendo por base pressupostos que “deviam estar errados” para muitos. Essa é uma mudança difícil de encarar quando a formatação de anos é desafiada por ideias novas.

Depois há a confusão entre Crossfit de competição (que muitos usam como referencia quando não devia ser) e Crossfit metodologia (que devia ser a matriz para um estilo de vida saudável)

Essa confusão afasta muitos novos praticantes porque a vertente competitiva ofusca a metodologia. Causa disso é que apenas uma pequena percentagem de praticantes ficam fascinados pela competição e todo o espectáculo que a envolve e eventualmente inscrevem-se numa box. Mas uma grande percentagem de pessoas que “ofuscadas” pelas imagens de superatletas, leva a que não se consigam ver a atingir aquele nível. Invariavelmente essa grande parcela, vai achar que o Crossfit não é para todos e tal palavra passada de boca em boca atinge uma grande magnitude.

Felizmente cada vez abrem mais boxes e a informação está a ser espalhada da melhor forma, daí haver um número crescente de praticantes.

P.C –  Falando agora um pouco a nível mais pessoal, és um dos melhores atletas nacionais da modalidade e tens tido o apoio de algumas marcas nacionais de referência. Esse apoio tem sido fundamental para a tua evolução como atleta?

T.S – Obrigado!

Nos tempos que correm devido às redes sociais, atletas/marcas podem viver numa relação em que ambos tiram proveito consoante o grau de compromisso e ambos saem a ganhar.

O que é “chato” em Portugal é copiar os maus exemplos dos outros países e esquecermos os bons. Por exemplo, proíbem-se atletas de usarem as marcas que os apoiam em eventos (isto acontece muito raramente, mas acontece) o que é mau, porque na oportunidade que o atleta tem de retribuir à marca, não o pode fazer! E claro, as marcas ficam reticentes em voltar a apoiar outros atletas.

As organizações têm de perceber que os apoios vão fazer a competição cada vez mais espectacular e também vão ter a ganhar com isso.

Independentemente disso, tenho a sorte de ter a meu lado marcas como a Boxpt, Myprotein, Rocktape, Cross and Run e recentemente a Casca Rija, que vêem em mim um meio de promoção da sua marca e que me proporcionam uma ajuda que me levou a atingir bons resultados. De outra maneira tornava-se complicado suportar áreas como o equipamento e suplementação.

P.C –  No nosso país temos atletas de grande qualidade, temos alguns que têm participado em algumas competições internacionais. O que é que achas que falta para termos mais e bons atletas a competir, e talvez quem sabe termos atletas nos Games?

T,S – Falta tempo……e na sequência da pergunta anterior, falta ao atleta profissionalizar-se nesta modalidade tal como acontece no estrangeiro e é aqui que surgem os patrocinadores.

Dedicarem-se a 100% ao Crossfit e tempo para evoluir, é o que falta na minha opinião.

Vamos demorar o nosso tempo a afirmar-nos lá fora porque começamos com alguns anos de atraso na área e com muitas décadas de atraso no que toca a cultura de determinados desportos que fazem parte do Crossfit, dou como exemplo, a halterofilia.

Será difícil mas mais ano menos ano, iremos vingar a nível europeu e depois logo se verá.

Certo é que vejo muita malta com potencial para atingir um nível internacional, sem dúvida!

P.C –  Tens marcado presença assídua nas melhores competições que se vão realizando em Portugal, o que é que para ti pode ser melhorado ao nível das organizações, e claro dos wods?

T.S – Essencialmente a variedade de testes e a preocupação em dar condições aos atletas de descanso e aquecimento no dia de prova.

Começo pela variedade de testes, que é extremamente reduzida.

Na maior parte das competições sei que tenho uma “Rig”, barras olímpicas e peso, ocasionalmente kettlebels e remo. Destes itens 60 a 70% da prova já são trabalho com barra olímpica (o que já limita bastante a variedade) e na maioria das vezes não pode ser pesado porque não se pode estragar o piso.

Existem sempre demasiadas limitações com o espaço, o que conduz a um teste físico pouco abrangente e aborrecido para o público. Nesse aspeto a Boxpt Equipment tem feito um excelente trabalho a diversificar o tipo de materiais.

O outro ponto tem a ver com as zonas de aquecimento, que têm poucas condições levando muitas vezes os atletas a aquecer só durante 10 minutos antes de competir. A falta de zonas de descanso, que são necessárias para os principais intervenientes dos eventos, atletas e juízes que passam o fim-de-semana em zonas sobrelotadas e ruidosas.

Nem tudo é mau, a organização de juízes tem evoluído muito pela positiva e já existem eventos com espírito e capacidade de arriscar, dou como exemplo os Community Summer Games, Ultimate PowerFitness Games e os Madeira CrossGames todos são para mim a referência a ter em conta.

P.C –  Já tenho ouvido que o “espirito de comunidade” desenvolvido pelos CrossFiters é uma utopia, e que na realidade está muito longe do verdadeiro sentido da palavra. O que é que tens a dizer sobre isto?

T.S – Também sinto isso.

Acho que muita gente confunde o fato de praticarmos uma modalidade em comum, bem como ter-mos uns ténis ou uns calções muita giros em comum.

Não deixa de ser fixe nos considerar-mos no mesmo comprimento de onda mas daí a ser chamado comunidade……..vai um bocadinho.

Digo isto porque temos alguns exemplos de divisões, contradições como queiram chamar, que a mim não me leva a pensar que em Portugal temos das comunidades mais fortes do mundo. Somos tão fortes como a comunidade de Atletismo, Paintball ou Columbofilia.

Para isso contribui a circunstância de não nos empenharmos para um objectivo em comum e o que se vê é: Box filiadas vs afiliadas ; eventos para a comunidade mas em que “se chega à frente” apenas uma ou duas boxes; os bitaites (normalmente destrutivos); o Chico-espertismo e o mau perder.

Claro que todas as comunidades têm os seus revezes mas esta é apenas a minha opinião do que eu acho que devia ser uma comunidade e não acho que o estejamos a ser pelos motivos certos.

P.C – Planos para o futuro?

T.S – A curto prazo, vou competindo enquanto estiver a gostar realmente do que estou a fazer.

A médio-longo prazo tenho o sonho de passar esta minha paixão para os outros e como tal gostaria de abrir o meu espaço e ter outro projecto na área do fitness seja ele físico ou digital, entretanto vou pensado…

P.C –  Bem só me resta agradecer a tua disponibilidade para termos esta pequena conversa. Queres deixar alguma nota final que aches importante para os leitores do blogue?

T.S – Eu é que agradeço, por me dares um espacinho para falar daquilo que mais gostamos e quero dar-te os parabéns pela iniciativa. Porque bem como os apoios e patrocínios, tu e outros como tu, também fazem a modalidade crescer evoluir e captar pessoas para um estilo de vida mais desportivo e saudável e isso sim é digno de referência.

Aos leitores, digo-vos para experimentarem a modalidade e que não se deixem ir em cantigas, experimentem e depois julguem por vós.

Bons Treinos.

Telmo Santos

Desde já obrigado pelas tuas palavras, o meu objetivo com estas entrevistas e crónicas de atletas, é dar a conhecer melhor ao público em geral menos atento ao CrossFit o que os atletas pensam sobre a modalidade. Também tentar desmistificar aquela ideia que o CrossFit é perigoso como muitos querem fazer passar, e o teu testemunho comos os outros acho que tem sido fundamental. Mais uma vez obrigado pela pequena conversa!

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